quarta-feira, 29 de maio de 2013

A metalurgia em Oaxaca

Oaxaca desenvolveu uma grande tradição de ourivesaria desde os finais do séc. IX até ao início do séc. XVI. A exploração mineira iniciou-se no Período Clássico, entre 1 e 700 d.C., sendo parte de um processo tecnológico de aproveitamento integral dos minerais. Mais tarde, este processo incluirá também a preparação mecânica, a metalurgia extractiva e o uso de moldes. Na Mesoamérica desenvolveu-se simultaneamente a metalurgia extractiva e a ourivesaria, durante o séc. XI, provavelmente desenvolvidas pela América do Sul. [1]
O conhecimento metalúrgico em Oaxaca é datado numa época relativamente tardia, sendo a técnica totalmente dominada apenas em 800 d.C., nos finais do período Clássico. Neste sentido, diversos investigadores identificam influências externas de processos elaborados, que chegaram à Mesoamérica por via marítima. Situam a origem da metalurgia no Centro e no Sul da América, regiões onde o ouro era trabalhado, assim como o cobre puro e a prata, ainda que em menor escala. Esta expansão deu-se provavelmente pelo Pacífico, o que explica a fase inicial de desenvolvimento nas regiões de Oaxaca, Guerrero e Michoacán, difundindo-se mais tardiamente por outras regiões da Mesoamérica. No entanto, são também identificadas rotas terrestres neste intercâmbio, sobretudo com as áreas anteriormente referidas e ainda com Chiapas. Podemos afirmar que, com base nos centros de ourivesaria  estabelecidos, as rotas de entrada da ourivesaria procedente do Centro e do Sul da América relacionavam-se com a rede de intercâmbio marítimo costeiro, com bases terrestres no Equador.[2] Mais concretamente, Paul Rivete, um investigador da ourivesaria mixteca, identifica a origem da metalurgia no Peru. Segundo ele, a metalurgia chegou até à costa mexicana do Pacífico desde a costa Norte do Peru, tendo sido introduzidas neste processo diversas técnicas. Exemplo disso são as técnicas do cobre e  do bronze, o casamento de metais e a coloração da liga resultante desse mesmo casamento.
A difusão da metalurgia  na Mesoamérica tratou-se de um processo lento e paulatino, sendo por isso bastante notável a prontidão dos mixtecas na recepção destas técnicas e no seu aperfeiçoamento, atingindo grande renome, não só a nível local, como também internacional. [3]
Com base no estudo dos objectos de ourivesaria mesoamericanos, podemos identificar duas fases na introdução de influências estrangeiras. Uma primeira fase, situada entre os anos 700 e 1000, indica que a difusão do trabalho do metal poderá ter chegado através da rede de intercâmbio com base no Equador. Esta afirmação pode ser confirmada com base nos tipos de vestígios arqueológicos, nas técnicas utilizadas, sendo especialmente notável a semelhança com a metalurgia do sul do Equador. Por volta do ano 700 introduz-se nos centros de ourivesaria mixtecas e do Ocidente as técnicas de fundição com ceras perdidas, a soldadura e o casamento de metais. A segunda fase, iniciada no ano 1000, mantém as influências anteriores assim como denota a influência de elementos originários do sul do Peru e da Bolívia, numa época em que estas populações expandem as suas rotas marítimas. [4]
Na extracção do ouro, destacam-se cidades como Chinantla, Sosola e Tututepec, a província mais rica. Ainda de frisar outras regiões como Coatlán, Ocelo, Tepeque, Pochutla, Suchitepeque, Tehuantepec, Chinantla, Yanhuitlán, Teotitlán. [5]
Quanto às trocas comerciais efectuadas, alguns cronistas defendem que o ouro que circulava em Anáhuac tinha a sua origem em Oaxaca. À medida que Tenochitlan é ocupada pelos mixtecas, vão também chegando diversos objectos em ouro, como pagamento de tributos.  Em Azcapotzalco existiam também diversos centros de ourivesaria mixteca, tendo mesmo ocorrido a transferência de ourives mixtecas para a região.Uma outra rede de intercâmbio situava-se na região de Chibcha, no sul da costa central  do Perú. Esta rede terá funcionado entre  os anos 1000 e 1534. 
Devido ao sistema sócio-político mixteca e às fortes linhagens dos nobres, que favoreciam fortes alianças e um patronato cultural, os mixtecas regulamentavam e controlavam o ouro, a produção de objectos com o mesmo e a sua coercialização. [6]
Em 1519, com a chegada dos Espanhóis, ocorrem trocas de materiais entre os mixtecas e os colonizadores, ainda de forma injusta por ingenuidade do povo indígena. Enquanto os mixtecas ofereciam ouro, o povo espanhol oferecia em troca "contas de cristal de cor azul", isto é, pequenos pedaços de vidro. Quando Hernán Cortés questiona Moctezuma acerca da localização do ouro, Oaxaca é saqueada, assim como as sepulturas da região. Com a conquista, os mixtecas pagavam o seu tributo em ouro, tendo sido diversos objectos valiosos destinados à fundição. Em Espanha, o ouro fundido era transformado em moedas.[7]

[1] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[2] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 318
[3] SOUSTELLE, Jacques, El arte del México Antiguo, Barcelona: Juventud, 1969, p. 120
[4] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 318
[5] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[6] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 320
[7] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013

A cultura mixteca

A cultura mixteca é uma cultura arqueológica pré-hispânica, com as suas primeiras manifestações no período Pré-Clássico Mesoamericano, c. XV-II a.C., tendo terminado com a Conquista Espanhola, nas primeiras décadas do séc. XVI da nossa era. Dentro desta cultura, o nosso enfoque centra-se nos mixtecos,  "o povo das nuvens", em asteca.[1] Este povo indígena encontrava-se presente no território histórico La Mixteca, ou Ñuu Dzahui, em mixteco antigo. La Mixteca compreende a região territorial entre os actuais estados de Guerrera, Puebla e Oaxaca, sendo este último o nosso caso de estudo.(fig. 1) Com uma longa cronologia, que remonta à data de 1500 a.C., altura em que floresceram as aldeias agrícolas de Yucuita e de Monte Negro, centramos a nossa investigação no período Clássico e Pós-Clássico.(fig.2)
No período Clássico é importante frisar o crescimento dos centros de Teotihuacan e de Monte Albán, região que, como iremos observar, foi fundamental para a metalurgia mixteca. No final desta época estes mesmos centros sofrem de uma extinção das populações, sendo ocupados por tribos que se apoderam do que subsistiu das anteriores, entre elas os mixtecos. 
O contacto entre náguas e mixtecas vai ter consequências na arte mexicana, gerando-se uma mescla de concepções religiosas e cosmológicas. Deste troca de influências, os astecas irão mais tarde retirar proveito e conceber a sua própria cultura.[2] Na região onde estes dois povos convivem e edificam uma civilização, designada como "mixteca-puebla", apesar da diferença entre línguas e origens, as trocas de ideias e teorias vão ser recorrentes. Enquanto os mixtecas se apresentam com um grande virtuosismo artístico e grandes habilidades técnicas, os náguas são importantes para o desenvolvimento das concepções religiosas e cosmológicas, sendo estas muito diferentes das dos zapotecas. Neste contexto, destaca-se a cidade de Teotitlan del Camino, uma cidade mazateca que desempenhou um importante papel no desenvolvimento das ideias religiosas. Neste sentido os sacerdotes procuravam criar uma visão sincrética dos deuses e do universo, criando uma síntese dos mitos tribais e das lendas particulares de cada região.  Já os símbolos hieroglíficos dos mixtecas parecem ter sido imitados dos maias, criando assim um sincretismo nesta cultura e tornando difícil a identificação da sua herança cultura.[3]
Com uma história escrita que se inicia no séc. VII, a cultura mixteca atinge o seu apogeu no período Pós-Clássico, sob o domínio da figura histórico-legendária "Ocho Ciervo" ou " Garra de jaguar" (1011-1063). Foi no séc. XI que o povo mixteca decidiu expandir-se e desenvolver a sua área territorial. Os náguas, conscientes da superioridade técnica dos mixtecas, favoreceram o intercâmbio cultural. Exemplo disso é o 4º monarca de Texcoco que, no início do séc. XIV,  consente a imigração de mixtecas para a cidade que tinha acabado de fundar.
Apesar da troca de influências entre estes povos pré-hispânicos, os mixtecas consideravam-se autóctones. Segundo os mitos desta cultura, os seus antepassados teriam saído do solo ou nascidos das árvores do país, estabelecendo o seu primeiro centro em Tilantongo, na região de Oaxaca. 
Esta cultura, a par dos astecas, subiste até à Conquista Espanhola, como já referido anteriormente, deixando a sua marca em diversos sectores. Destacam-se a ourivesaria, a lapidação de gemas, a iconografia religiosa, a escultura em madeira, a cerâmica policromada e a iluminação de manuscritos.[4]
Fundamental para o estudo deste povo são os cronistas mixtecas e os códices Bodley, Zoucbe-Nutall, pintado em 1350, e Vindobonensis, de c. 1375, que relatam a história mixteca desde os finais do séc. VII, c. 692, até à Conquista Espanhola.[5]

Fig. 1 - A região La Mixteca, onde se incluem os estados de Guerrero, Puebla e Oaxaca

Fig. 2 - A presença mixteca ao longo do desenvolvimento da Mesoamérica

[1] ANTON, Ferdinand, ROSS, Peter, Ancient Mexican Art, Nova Iorque: G.P.Putman, 1969, p. 160
[2] idem, p. 119
[3] idem, p. 120
[4] idem, p. 160
[5] CANTU, Gloria, Historia de Mexico - El proceso de gestación de un pueblo, México: Pearson Educación, 2002

Objectivos da investigação

No âmbito da cadeira História do México, desenvolvemos um trabalho de investigação acerca da ourivesaria mixteca. Esta investigação tem como principais objectivos compreender o desenvolvimento da ourivesaria na região de Oaxaca, local onde se situavam os mixtecas, e identificar as principais características que a definem. Procuramos um entendimento acerca dos materiais utilizados, dos meios de produção, assim como das rotas que efectuavam as matérias-prima e as peças de ourivesaria alvo de comércio. Realizamos uma pesquisa acerca da importância da joalharia para a cultura mixteca, enquanto símbolo religioso e de estatuto social e desenvolvemos uma compreensão acerca das iconografias que constavam nas jóias e os seus contextos de utilização.
Neste sentido, a metodologia de trabalho utilizada consiste numa primeira contextualização desta cultura da Mesoamérica. Seguindamente focamos a nossa análise em objectos artísticos concretos, exemplos de características comuns a toda a ourivesaria mixteca. Procuramos também identificar as técnicas utilizadas e, fundamental para o estudo deste tema, introduzimos o caso das Tumbas de Monte Albán, onde figuram exemplares importantes para a história da ourivesaria na Mesoamérica.
A intenção deste blog centra-se na divulgação académica da joalharia mixteca, de grande riqueza e qualidade técnica, como iremos observar. Por se tratar de uma matéria que sofre de constantes descobertas,  temos como objectivo actualizar a informação que transmitimos, assim como introduzir novos factos descobertos, quando assim aconteça.