quarta-feira, 5 de junho de 2013

Fontes de pesquisa

  • ANTON, Ferdinand, ROSS, Peter, Ancient Mexican Art, Nova Iorque: G.P.Putman, 1969
  • CANTÚ, Gloria, Historia de Mexico - El processo de gestación de un pueblo, México: Pearson Educación, 2002 
  • LÉON-PORTILLA, Miguel, Obras de Miguel Léon-Portilla - Tomo II, En torno a la historia de Mesoamérica, México: Universidad Nacional Autónoma de México, 2004
  • PEREA, Alicia, Tecnología del oro antiguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004
  • SOLÍS, Felipe, Museo Nacional de Antropologia, México: Monclem, 1980
  • SOUSTELLE, Jacques, El arte del México Antiguo, Barcelona: Juventud, 1969

Fontes on-line:
  • CARMONA, Martha, El bezote: símbolo de poder entre los antiguos Mixtecas, Boletín del Museo del Oro, nº 42 de 1997, Mexico in http://www.banrepcultural.org/blaavirtual/publicacionesbanrep/bolmuseo/1997/enjn42/enjn02a.htm
  • CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013
  • CASO, Luis Rius, Acercamiento a los huesos labrados de la orfebrería mixteca, pp. 7-14 in https://www.google.pt/url?sa=f&rct=j&url=http://www.analesiie.unam.mx/index.php/analesiie/article/download/1311/1298&q=&esrc=s&ei=PjyvUcbQBvDG7AbY-4G4Cg&usg=AFQjCNFRLz2IdeODzXfXkzLBufUdPYju3w, acedido em 2/5/2013
  • GARCÍA, Nelly M, Robles, Cuando se descubrió la Tumba de Monte Albán in http://www.mexicodesconocido.com.mx/cuando-se-descubrio-la-tumba-de-monte-alban.html, consultado em 24/4/2013
  • RUVALCABA, José Luis, Technological and material features of the gold work of Mesoamerica - Revista ArchéoSciences nº 33 de 2009 in http://www.cairn.info/revue-archeosciences-2009-2-page-289.htm, consultado em 25/4/2013
  • Análisis no destructivo mediante haces de iones, de joyas y ornamentos propios de la metalurgia del oro de América Prehispánca 3 - Boletín del Museo del Oro,nº 44-45 de 1998 in http://www.banrepcultural.org/blaavirtual/publicacionesbanrep/bolmuseo/1998/endi4445/endi07c.htm,consultado em 24/4/2013
  • La orfebrería en la Historia in http://www.orfebres.cl/images/libro%20proyec/historia.pdf, consultado em 25/4/2013
  • Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013

Os ossos talhados na Tumba nº 7

Os ossos de animais talhados revelaram-se também uma grande fonte para o conhecimento da cultura mixteca. Através do estudo dos códices mixtecas, do grupo Borgia e astecas, do estudo das jóias e das cerâmicas procedentes de Oaxaca, podemos não só identificar os motivos representados nestes ossos como também os seus criadores anónimos.
Para além das representações gerais da arte mesoamericana, comprovadas nos códices, onde podemos identificas cenas sagradas, cosmológicas, datas, animais e elementos arquitectónicos, estes ossos de animais apresentaram calendários que divergiam na sua quantidade de dias, contribuindo para a problematização do conhecimento neste âmbito. Com a descoberta de uma grande quantidade destes objectos artísticos na Tumba nº 7 de Monte Albán, a própria investigação considera-os na interpretação de códices, revelando-se assim uma fonte incontornável  no entendimento da cultura mixteca.
A Tumba nº 7 de Monte Albán é fundamental para a compreensão estilística destas peças, uma vez que se assemelham a outras descobertas por Roberto Gallegos, nas Tumbas 1 e 2 de Zaachila, assim como outras achadas em Oaxaca. Nesta Tumba foram encontrados inúmeros ossos de animais e de humanos, encontrando-se entre eles 34 ossos de jaguar e outra quantidade menor de ossos de águia, esculpidos. Alguns dos ossos apresentam possivelmente uma função prática, possuindo a forma de um lançador de dardos ou de um objecto furador. Outros apresentam-se como lâminas, cortadas verticalmente do osso, com os extremos afiados. Estas lâminas apresentavam decoração de um só dos lados, com relevos de grande profundidade.
Em alguns dos objectos provavelmente era incrustada turquesa e concha, sendo a profundidade dos relevos nas figurações muito variável. Relativamente às figurações presentes nestes objectos, Miguel Covarrubias refere: "(...) os desenhos empregados são compactos; são motivos mitológicos e signos de calendário arranjados da mesma forma que nos códices, mas em tamanho pequeno e adaptados perfeitamente aos sectores em que se divide o objecto." Apesar da aglutinação de figuras, anulando diversas vezes o fundo, nenhuma das representações ficava comprometida, sendo de perfeita compreensão a narrativa representada, sem supressão de figuras. (fig.1) Para além deste esquema de representação, existem também representações de figuras individualmente, separadas geralmente por bandas decorativas. Nesta separação existem motivos frequentes, como serpentes, linhas curvas, chalchihuites ou xonecuillis - elementos que fazem sempre alusão a Xochipilli, deus do Verão. Apesar da variedade de motivos, num mesmo osso é apenas representado um motivo, podendo ser alternado com outro. (fig. 2) Nos vestígios que possuímos como fonte para este estudo, encontram-se no máximo três motivos diferenciados num mesmo osso. É também comum a confusão destes motivos com figurações que surgem em representações de céus diurnos de Verão e céus nocturnos, como raios solares, cabeças de animais e de deuses.
Fig. 1 - Exemplos de ossos talhados onde se verifica a profusão de elementos




Fig. 2 - Na figura 5a verificamos o enquadramento da cena através de um rectângulo ! Na figura 5b. encontra-se a divisão das figuras por bandas decorativas
Os remates destas peças, frequentes sobretudo nas lâminas, apresentam-se nos extremos, geralmente unidos por uma linha simples. Era frequente a representação de cabeças de lagartos, de serpentes e águias, sobretudo com um sentido decorativo.
A leitura destes objectos é determinada pelas figuras, sendo geralmente feita da direita para a esquerda.
Os ossos possuíam atributos especiais, sobretudo os de jaguar e de águia, animais de extrema importância religiosa. Revelam-se assim objectos pertencentes a uma elite política e sacerdotes e, segundo Luis Ruis Caso, a fonte na investigação deste tema, podiam tratar-se de talismãs. Esta suposição tem por base as lâminas com a representação dos dias favoráveis de tonalpohualli, e as que apresentam a corda floreada, motivo comum nos tambores de guerra. Fundamenta-se também no facto destes ossos serem encontrados em tumbas, acompanhando assim o defunto na sua viagem e apresentado-se como talismãs protectores.

Fonte de estudo: CASO, Luis Rius, Acercamiento a los huesos labrados de la orfebrería mixteca, pp. 7-14 in https://www.google.pt/url?sa=f&rct=j&url=http://www.analesiie.unam.mx/index.php/analesiie/article/download/1311/1298&q=&esrc=s&ei=PjyvUcbQBvDG7AbY-4G4Cg&usg=AFQjCNFRLz2IdeODzXfXkzLBufUdPYju3w, acedido em 2/5/2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Tumba nº 7 de Monte Albán

Fundamental para o estudo da ourivesaria mixteca é a Tumba nº 7 de Monte Albán.(fig. 1) Descoberta a 9 de Janeiro de 1932, por Alfonso Caso, esta Tumba é não só um importante testemunho da qualidade artística mixteca, como também do desenvolvimento arqueológico da época. Impregnada do espírito romântico da época, esta descoberta arqueológica revolucionou os inícios da arqueologia mexicana, para além de ter sido difundida internacionalmente, apoiada nos avanços tecnológicos da época, como o rádio, o telegrafo e os  caminhos-de-ferro. O processo de exploração da Tumba nº 7, assim como da cidade de Monte Albán, foi bastante longo. Iniciado no período da recessão internacional, e aproveitando o facto do México não ser um país desenvolvido, durante um largo período de tempo foram reunidos os recursos necessários para esta exploração. Neste sentido, o governo federal, especialmente o de Lázaro Cárdenas, revelou-se fundamental para esta reunião de recursos, enquanto os países desenvolvidos gastavam o seu dinheiro em armamento e tecnologia de guerra.

Fig. 1 - Interior da Tumba nº 7 de Monte Albán

A 13 de Janeiro de 1932, Alfonso Caso envia um telegrama notificando a descoberta e pedindo auxílio; nele podemos ler: "Asunto: descubierta tumba más importante América, enviaré detalles. Urge salgan hoy, si es posible, Marquina, Borbolla y Eulalia Guzmán. C. Alfonso Caso. Arqueólogo. 13 de enero, 1932  El ingeniero Ignacio Marquina pasó a la historia como una pieza clave en la historia de la arquitectura y urbanismo mesoamericanos; a él le debemos el único intento que se ha hecho por recopilar toda la arquitectura prehispánica en una sola obra. Daniel Rubín de la Borbolla fue uno de los primeros antropólogos físicos de México."
Respondendo ao seu pedido, Eulalia Guzmán trabalha como sua assistente, sendo também um aspecto fundamental neste processo, que marca a presença feminina na arqueologia incipiente. Para além desta, também María Lombardo, mulher de Alfonso Caso, esteve presente no local arqueológico, reivindicando o papel da mulher na arqueologia. Podemos confirmar o reconhecimento do trabalho de Alfonso Caso e do apoio prestado ao projecto, através de registos de oferta de ajuda, ainda que dirigidos às autoridades civis e militares:  "...a fin de que se sirvan prestarle la protección y ayuda necesarias para su labor". Como verificamos, o arqueólogo dispunha das ferramentas necessárias para a exploração e restauro do local.
A equipa que desenvolveu este projecto foi composta não só por arqueólogos como também por arquitectos e desenhadores. Para além dos assistentes mencionados, destacam-se ainda: Jorge R. Acosta, Ignacio Bernal, Juan Valenzuela e José Reygadas Vértiz.
Quando Alfonso Caso reporta a sua descoberta, identifica-a como sendo um enterramento e uma oferenda mixteca, o que gerou uma grande controvérsia e o tornou alvo de críticas. Estas críticas sucederam-se devido ao facto do arqueólogo ter identificado um local com objectos artísticos de tamanha qualidade, com origem numa cultura "menor", como eram identificados os mixtecas. Relativamente a este assunto, Thomas Atole do Museu Britânico de Londres, afirma que as manifestações mixtecas apresentavam “...una fuerte y permeable influencia maya primitiva”. Após tamanha perda de credibilidade, passados vários anos de estudo e análise do conteúdo da Tumba, Alfonso Caso provou a origem mixteca dos vestígios descobertos. [1]
Actualmente, possuímos o conhecimento de que a Tumba Nº 7 era inicialmente zapoteca, ocupada pelos mesmos entre os anos de 650 e de 900. No entanto, é depois desocupada pelos mixtecas, na época em que a tribo indígena ocupa o Monte Albán, e todos os artefactos anteriores são retirados, à excepção de algumas peças de cerâmica, entre elas, urnas. [2]  Devido à riqueza dos vestígios nela encontrados, sabemos ter pertencido a uma figura com um cargo elevado na hierarquia social. 
Nesta tumba foram descobertos mais de quinhentos objectos preciosos, entre eles: peitorais (fig. 2), pendentes (fig. 3), ossos cinzelados, máscaras com mosaico de jade e turquesa (fig. 4), máscaras de ouro (fig. 5), diademas, e cerâmicas. [3]


Fig. 2 - Peitoral do deus Miquiztli, deus da morte | Emprego da técnica da falsa filigrana
Fig. 3 - Três dos cinco pendentes de Xochipilli | Apontamentos da falsa filigrana utilizada


Fig. 4 - Crânio coberto com mosaico de turquesa | Colecção do Museu Regional de Oaxaca

Fig. 5 - Máscara do deus Xipe - Tótec | Ouro 


[1] GARCÍA, Nelly M, Robles, Cuando se descubrió la Tumba de Monte Albán in http://www.mexicodesconocido.com.mx/cuando-se-descubrio-la-tumba-de-monte-alban.html, consultado em 24/4/2013
[2] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[3] SOUSTELLE, Jacques, El arte del México Antiguo, Barcelona: Juventud, 1969, p. 119

A iconografia e os simbolismos das jóias

Como já referimos anteriormente, a joalharia desempenhava um papel fundamental na sociedade mixteca, sendo símbolo do divino e de um estatuto social elevado. Os ourives na sua prática de oficina eram supervisionados por sacerdotes, sobretudo quando tinham de representar em anéis, pingentes, peitorais ou broches, a figuração dos deuses.[1] Na iconografia destas representações vão figurar diversos deuses, entre eles, os mais comuns: Xipe Totéc, deus da Primavera e dos ourives; Toho Ita, senhor das flores e do Verão; Koo Sau, a serpente sagrada emplumada (fig. 1); Yaa Dzandaya, divindade do Inframundo; Ñuhu Savi ou Dazahui, deus da chuva e do raio; Yaa Nikandii, o deus solar, implícito no próprio ouro. Segundo as indicações dos sacerdotes, estas figuras deviam ser todas representadas como homens, incluindo o deus Sol. Outra representação comum do Sol são também os círculos, lisos ou com raios solares, num trabalho repuxado do ouro. As divindades podiam também surgir segundo representações zoomorfas, sendo exemplo a iconografia com: jaguares, águias, faisões, borboletas, cães, coiotes, tartarugas, rãs, búfalos, serpentes e morcegos.(fig. 2) O simbolismo destas figurações assemelha-se ao das esculturas toltecas e maias, estando sempre ligado aos deuses e às questões astrais. [2]

Fig. 1 - Bezote em forma de serpente, evocando o deus Koo Sau

Fig. 2 - Máscara-peitoral do deus morcego  |  Jade, concha e  ardósia | Monte Albán |  Proto-Clássico | Museu Nacional de Antropologia, México | O morcego era relacionado simultaneamente com a fertilidade e  com o deus do milho, assim como com o deus do Inframundo

As flores, as plumas e as faces dos deuses que figuravam nas jóias, eram desenhadas cuidadosamente com os fios de ouro. Era também frequente a representação de cenas cosmológicas.
Quanto aos motivos ornamentais destacam-se as grecas, motivo simbólico com várias interpretações, evocando esquematicamente o deus da Serpente, Koo Sau. Este motivo podia também representar as diferentes etapas da vida, aludindo à condição humana. São também frequentes as volutas, os meandros, linhas curtas onduladas - meramente decorativas, espirais, granulados e entrançados. Independentemente da oficina em que eram fabricados, estes motivos eram difundidos e surgiam sempre iguais. A sua representação era modular, criando diversos padrões. A ourivesaria mixteca apresenta uma tendência de preenchimento de todos os espaços, seja através da filigrana ou do granulado, incluindo uma grande pormenorização nos desenhos e nos remates. No remate de diversas peças podemos ainda encontrar guizos ou sinos, utilizados com um sentido de protecção.[3]
Era muito frequente o uso de pingentes, sustentados pelo bico de uma ave, que se apresentava numa posição de voo descendente.  Estes elementos apresentavam formas relacionadas com o sagrado e pedras preciosas, e podiam ser utilizados em anéis, "orejeras" ou "bezotes". Em complemento, eram rematados por argolas e plumas. [4]

[1] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013
[2] SOUSTELLE, Jacques, El arte del México Antiguo, Barcelona: Juventud, 1969, p. 120
[3] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 320
[4] idem, p. 320

As técnicas da ourivesaria mixteca

Tecnicamente, os mixtecas rapidamente desenvolveram os processos importados, sendo as técnicas metalúrgicas mais antigas conhecidas amplamente em Oaxaca. Numa primeira fase o metal era trabalho em forjamento, com o martelo, a frio. Mais tarde é introduzido o processo de recozimento para que o metal não seja tão quebradiço e pudesse ser mais maleável. Esta técnica foi também fundamental para o fabrico de ferramentas, uma vez que ao atribuir mais resistência ao metal, em conjunto com a martelada, endurecia o metal quando arrefecido, sobretudo quando se tratava de instrumentos em cobre.  Com os comerciantes estrangeiros é introduzida a fundição do metal, os moldes para o processo das ceras perdidas, e a técnica do dourado.
As técnicas utilizadas podem então ser divididas em dois grandes grupos: as técnicas primárias e as técnicas complementares. Nas técnicas primárias integra-se o martelamento e a prensagem para a laminação, o repuxado, o recozimento, o estampado e as uniões mecânicas. Nas técnicas complementares, desenvolvidas mais tardiamente, consta a incrustação e o engaste de gemas, o revestimento, a gravação e cinzelagem, as ceras perdidas e o polimento como técnica de acabamento.[1]
A técnica das ceras perdidas, ainda hoje amplamente utilizada, requeria um grande domínio técnico e habilidade, tratando-se de um processo complexo e demorado. Esta técnica consiste, numa primeira fase, no fabrico em cera do objecto pretendido. De seguida, era feito um molde do mesmo em carvão e argila, sendo deixados orifícios para a libertação do ar no momento da fundição. Num terceiro passo, o molde era colocado num forno para que a cera se fundisse, desocupando assim as cavidades a serem preenchidas pelo ouro. Ou seja, um jogo de negativos e positivos. Sem retirar o molde do forno, para que não restasse qualquer vestígio de cera ou humidade, e se mantivesse a temperatura elevada do mesmo, o metal que era simultaneamente fundido num cadilho, era vertido para o molde, fluindo pelas cavidades deixadas pela cera. De seguida, o molde era deixado a arrefecer lentamente no forno já apagado, partindo-se quando frio e libertando a peça. Na última fase do processo, a peça era limpa e polida. Efectuava-se uma primeira limpeza para retirar as marcas dos respiradouros. De seguida, submetia-se o objecto a um banho de alumínio e através do recozimento eliminavam-se os óxidos superficiais. Dava-se um banho de ácido para o ouro ficar mais reluzente e por fim, era novamente polido.
Praticantes natos do casamento dos metais, desenvolveram também a técnica do dourado. Este processo consistia no acabamento das peças através de uma liga com pouco ouro e muito cobre, de forma a dar o aspecto de "ouro fino". O objecto era recozido até o cobre formar uma capa na superfície, sendo seguidamente submetido a um banho ácido de algumas plantas ou de urina, para retirar essa capa. Esta técnica foi também utilizada pelos comerciantes estrangeiros, no entanto, ao contrário dos mixtecas, usavam pouco ouro nos seus casamentos de metais. Apesar de possuírem este conhecimento, a liga de metal utilizada pelos mixtecas nunca possuía muito cobre, sendo a "tumbaga", uma liga de metal com 80% de cobre e 20% ou 30% de ouro, muito raramente utilizada. Na realidade, a liga utilizada pelos mixtecas possuía até 80% de ouro, sendo a restante percentagem de prata, o que conferia uma maior maleabilidade e reduzia a temperatura de fundição. [2] 
Muito comum nas peças mixtecas era também o uso de finos fios de ouro, numa espécie de filigrana ou rendilhado, que desenhavam complexos pormenores na joalharia. Devido à qualidade exímia na fundição, os ourives conseguiam fundir estes fios juntamente com o objecto onde se localizariam.[3]
Na soldadura os mixtecas revelaram-se também grandes mestres. Soldavam tanto a frio como a quente e também por meio da martelada, sem deixar qualquer vestígio da mesma. A soldadura era utilizada como união de peças do mesmo metal, sendo usado para o efeito cristais de cobre ou carbonatos de cobre, como a azurita e malaquita, materiais muito abundantes que formam a liga perfeita para a fundição. Quando a soldadura era imperfeita ficava no reverso da peça, sem deixar qualquer vestígio visível para o espectador. Em alguns objectos, a cor oxidada obtida pela soldadura era apreciada, sendo deixada deliberadamente. A união de peças podia também ser efectuada de forma mais simples, por meio de grampos, sendo este processo especialmente utilizado na união de fios.
Como instrumentos utilizavam maços de pedra como martelos, e apoiavam-se em bigornas de diferentes formatos para laminar com diferentes espessuras o metal. As lâminas mais finas eram utilizadas para cobrir as contas de carvão e de argila, e as de maior espessura utilizadas para o fabrico de discos do deus Sol.[4]

[1] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[2] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004,  p. 320
[3] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013
[4] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013

As tipologias de jóias utilizadas

Nas tipologias das peças mais frequentes, destacam-se os peitorais, os pendentes, os anéis, os broches, as "orejeras", as "narigueras" e os "bezotes".
Os peitorais revelam-se grandes fontes para o conhecimento dos deuses, do calendário e das concepções míticas mixtecas e podiam ser utilizados de forma isolada ou como parte de um colar. Nas ilustrações dos códices de Tepetláoztoc ou de Kingsborough, figuram vários exemplares de peitorais, revelando-se fundamentais para este estudo. (fig.1)

Fig. 1 - Peitoral de escudo indígena | Ouro e turquesa | Yanhuitlán, Oaxaca | Pós-Clássico - c. 900-1521 |  Museu Nacional de Antropologia, México 

Os pendentes são peças muito comuns, com representações de divindades ou de animais associados às mesmas. Supõe-se que podiam ser utilizados como elos de ligação na indumentária ou como parte de peitorais.
 Os anéis, dzahui em mixteco, eram jóias muito variadas na sua forma, tamanho e design. Alguns eram extremamente pequenos, pensando-se que eram utilizados na segunda falange dos dedos, enquanto outros, devido ao grande comprimento que apresentam, pensa-se terem sido utilizados na terceira falage, como "unhas falsas". O número de anéis por mão era múltiplo, como podemos observar em algumas esculturas de divindades. O processo mais comum utilizado para o fabrico destas jóias era o das ceras perdidas, permitindo que a forma deste anéis varia-se entre simples argolas até aos anéis do tipo "diadema de turquesa", utilizado pelos nobres. Esta tipologia de anéis era composta pela argola estruturante do anel e uma placa de metal na sua parte frontal, decorada com grecas e granulados, ou com a figuração de uma ave, sendo muito comum a representação da águia que descende. Estes últimos anéis são aludidos no inventário enviado por Cortés para Espanha, feito por Cristóbal de Oñate, em 25 de Setembro de 1526. (fig. 2)


Fig. 2 - Anel | Ouro | Zaachila, Oaxaca | c. 1325 |  Museu Nacional de Antropologia, México

Os broches eram utilizados com uma função prática e simultaneamente decorativa. Utilizados como adorno no vestuário ou como remate nas capas dos nobres, guerreiros e governantes, apresentavam figurações semelhantes às dos pendentes.
As "orejeras" decoravam os lóbulos das orelhas e eram feitas em diferentes materiais. Podiam ser simples formas estilizadas, circulares, ou de formas complexas incluindo a agregação de plumas e pingentes. As "orejeras" designadas como epcolloli, associavam-se ao deus Quetzalcóatl, e eram feitas pelo martelamento de uma fina lâmina de ouro, posteriormente recortada e repuxada. Originalmente estas "orejeras" eram feitas de concha, podendo ser cobertas por mosaicos de turquesa. Existiam também "orejeras" de forma tubular, simples ou decoradas.
As "narigueras" eram adornos que que atravessavam o septo no nariz. Geralmente, eram de lâminas de ouro, recortadas com formas zoomorfas.[1]
Por fim, os "bezotes", yavuiindi dzaa em mixteco, que numa tradução livre se pode entender como "piercing no lábio", eram de uso exclusivo dos militares no topo da hierarquia. Esta jóia surge no período Pós-Clássico tardio, entre 1300 e 1521, e impregnava a classe militar de grande simbologia, sobretudo quando representavam divindades. (fig. 3) Associado ao seu significado estão também os materiais escolhidos para o fabrico destas peças, sendo comum o uso do cristal de rocha, o âmbar, o jade e o ouro. No Lienzo de Tlaxcala, lâmina 7, encontra-se representado o momento em que são oferecidos vários objectos a Hernán Cortés, destacando-se um "bezote" que representa um faisão. [2]

Fig. 3 - Retrato do tlatoani mexica Moctezuma Xocoyotzin, onde se verifica a utilização de um bezote em ouro


[1] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013 
[2] CARMONA, Martha, El bezote: símbolo de poder entre los antiguos Mixtecas, Boletín del Museo del Oro, nº 42 de 1997, Mexico

Os materiais utilizados na ourivesaria mixteca

Os mixtecas destacaram-se pelo seu trabalho com ouro, ainda que utilizassem outros metais, como a prata e o cobre. O ouro, ou em mixteco, dziñuhu cuaa ("el resplandeciente amarillo"), era considerado sagrado, sendo identificado como o excremento do deus Sol. Com uma cor associada à luz, à vida e ao calor, era um metal que simbolicamente identificava o dia, ao contrário da prata, que celebrava a noite. A prata, em mixteco, dai nuhu cuisi ("el resplandeciente blanco"), era por sua vez o excremento da Lua, astro que evocava a periodicidade, a renovação e o princípio feminino. O ouro e a prata representam por sua vez a eterna dualidade da cosmogonia Mesoamericana, relacionando o dia e a noite, a vida e a morte. Estes metais eram também diversas vezes trabalhados em conjunto, através do processo das ceras perdidas, técnica explanada mais adiante. [1]
Os primeiros objectos em metal foram introduzidos por mercadores de terras distantes de Oaxaca, que tinham como intenção a recolha de materiais do seu interesse. Enquanto difundiam as peças e as técnicas metalúrgicas, procuravam recolher conchas bivalves e caracóis, muito apreciados nas cerimónias religiosas e de extrema significância para a cultura Mesoamericana. Não só trouxeram peças que "brilhavam como o Sol", isto é, objectos de ouro, como mostraram ao povo de Oaxaca o local da extracção do metal e de que forma a mesma deveria ser feita.[2] O ouro era facilmente encontrado nos rios, sobretudo nas margens de decursos secundários, sendo obtido nesta extracção sob a forma de pepitas ou escamas. Uma vez que estes comerciantes nem sempre dispunham das condições favoráveis à navegação, ficavam bastante tempo em terras mixtecas, tirando proveito desses períodos para a extracção do ouro. O metal era recolhido em vasos especiais e seguidamente levado para as oficinas, onde posteriormente era em parte fundido para barras. Uma parte menor do ouro recolhido era deixado no seu estado primário, sendo depois utilizado para a fundição de peças de menores dimensões.[3] Os mixtecas possuíam em abundância este metal, sendo mesmo os com maior riqueza e controlo neste monopólio.
Devido à sua importância sagrada e simbólica, o uso do ouro era consagrado aos mais nobres da sociedade. Apesar dos ourives, ou Tay Tevuidzi ñuh, em mixteco, poderem trabalhar este metal, apenas os nobres, governantes e guerreiros, podiam utilizar objectos realizados com o mesmo. As peças de joalharia eram utilizadas como símbolo de um estatuto social e distinguiam o seu portador. Neste sentido, manufacturavam-se emblemas e insígnias. Nos emblemas destaca-se o uso de objectos como: brincos, colares, peitorais, pulseiras, braceletes, anéis simples de argola, anéis com pingentes, unhas falsas, discos lisos ou com motivos repuxados e incrustações de turquesa, lamelas para costura na indumentária. Relativamente às insígnias, as mesmas indicavam importantes posições sociais entre os nobres. Consoante a linhagem dos mesmos eram utilizadas tiaras, coroas ou diademas. No caso dos guerreiros, recorria-se ao uso de "narigueras" ou botões nasais e "bezotes". As jóias demonstravam também a descendência sagrada dos governantes, uma vez que os deuses tinham-lhes atribuído o poder, governando dessa forma a sua palavra e lei.[4]
Muito comum era também o uso de pedras preciosas, como o âmbar, o cristal de rocha, a turquesa e o jade.
O âmbar, yuu nduta nuhu em mixteco, traduz-se como a "pedra sagrada do mar", significado este que surge na lâmina 47 do códice Mendocino. Esta gema podia-se apresentar segundo três variedades: o âmbar de cor amarela, o mais valorizado; o âmbar de cor amarela misturada com verde claro; e o de cor amarelo pálido, pouco apreciado. O cronista afirma ainda que esta pedra preciosa era obtida na província de Tzinacantan. Simbolicamente, era muito apreciado pela sua cor semelhante à do Sol, do ouro e da terra antes das temporadas de chuva. Encontrava-se associado ao deus Xipe, sendo que se pintavam de amarelo aqueles que iriam ser sacrificados no fogo.
O cristal de rocha, yuu u yuhu em mixteca, apesar de ser uma uma gema muito dura, difícil de talhar, era apreciado pela sua cor translúcida, associada à pureza. São raros os vestígios arqueológicos de peças fabricadas com este material.
O jade, yunn duta e também yunn tatna em mixteco, era considerado uma pedra sagrada, associada aos deuses da água e da fecundidade. Nas Relaciones geográficas de la diócesis de Oaxaca del siglo X, mencionava-se Nejapa, em Oaxaca, como o lugar de obtenção do jade. [5]
A turquesa era associada ao céu e à água, sendo por isso também de extrema importância para a concepção simbólica das jóias.[6]

[1] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[2] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013
[3] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[4] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013
[5] CARMONA, Martha, El bezote: símbolo de poder entre los antiguos Mixtecas, Boletín del Museo del Oro, nº 42 de 1997, Mexico
[6] Culturas de Oaxaca in http://www.mna.inah.gob.mx/index.php/salas-de-exhibicion/permanentes/arqueologia/culturas-de-oaxaca.html?Itemid=85, consultado em 28/4/2013

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A metalurgia em Oaxaca

Oaxaca desenvolveu uma grande tradição de ourivesaria desde os finais do séc. IX até ao início do séc. XVI. A exploração mineira iniciou-se no Período Clássico, entre 1 e 700 d.C., sendo parte de um processo tecnológico de aproveitamento integral dos minerais. Mais tarde, este processo incluirá também a preparação mecânica, a metalurgia extractiva e o uso de moldes. Na Mesoamérica desenvolveu-se simultaneamente a metalurgia extractiva e a ourivesaria, durante o séc. XI, provavelmente desenvolvidas pela América do Sul. [1]
O conhecimento metalúrgico em Oaxaca é datado numa época relativamente tardia, sendo a técnica totalmente dominada apenas em 800 d.C., nos finais do período Clássico. Neste sentido, diversos investigadores identificam influências externas de processos elaborados, que chegaram à Mesoamérica por via marítima. Situam a origem da metalurgia no Centro e no Sul da América, regiões onde o ouro era trabalhado, assim como o cobre puro e a prata, ainda que em menor escala. Esta expansão deu-se provavelmente pelo Pacífico, o que explica a fase inicial de desenvolvimento nas regiões de Oaxaca, Guerrero e Michoacán, difundindo-se mais tardiamente por outras regiões da Mesoamérica. No entanto, são também identificadas rotas terrestres neste intercâmbio, sobretudo com as áreas anteriormente referidas e ainda com Chiapas. Podemos afirmar que, com base nos centros de ourivesaria  estabelecidos, as rotas de entrada da ourivesaria procedente do Centro e do Sul da América relacionavam-se com a rede de intercâmbio marítimo costeiro, com bases terrestres no Equador.[2] Mais concretamente, Paul Rivete, um investigador da ourivesaria mixteca, identifica a origem da metalurgia no Peru. Segundo ele, a metalurgia chegou até à costa mexicana do Pacífico desde a costa Norte do Peru, tendo sido introduzidas neste processo diversas técnicas. Exemplo disso são as técnicas do cobre e  do bronze, o casamento de metais e a coloração da liga resultante desse mesmo casamento.
A difusão da metalurgia  na Mesoamérica tratou-se de um processo lento e paulatino, sendo por isso bastante notável a prontidão dos mixtecas na recepção destas técnicas e no seu aperfeiçoamento, atingindo grande renome, não só a nível local, como também internacional. [3]
Com base no estudo dos objectos de ourivesaria mesoamericanos, podemos identificar duas fases na introdução de influências estrangeiras. Uma primeira fase, situada entre os anos 700 e 1000, indica que a difusão do trabalho do metal poderá ter chegado através da rede de intercâmbio com base no Equador. Esta afirmação pode ser confirmada com base nos tipos de vestígios arqueológicos, nas técnicas utilizadas, sendo especialmente notável a semelhança com a metalurgia do sul do Equador. Por volta do ano 700 introduz-se nos centros de ourivesaria mixtecas e do Ocidente as técnicas de fundição com ceras perdidas, a soldadura e o casamento de metais. A segunda fase, iniciada no ano 1000, mantém as influências anteriores assim como denota a influência de elementos originários do sul do Peru e da Bolívia, numa época em que estas populações expandem as suas rotas marítimas. [4]
Na extracção do ouro, destacam-se cidades como Chinantla, Sosola e Tututepec, a província mais rica. Ainda de frisar outras regiões como Coatlán, Ocelo, Tepeque, Pochutla, Suchitepeque, Tehuantepec, Chinantla, Yanhuitlán, Teotitlán. [5]
Quanto às trocas comerciais efectuadas, alguns cronistas defendem que o ouro que circulava em Anáhuac tinha a sua origem em Oaxaca. À medida que Tenochitlan é ocupada pelos mixtecas, vão também chegando diversos objectos em ouro, como pagamento de tributos.  Em Azcapotzalco existiam também diversos centros de ourivesaria mixteca, tendo mesmo ocorrido a transferência de ourives mixtecas para a região.Uma outra rede de intercâmbio situava-se na região de Chibcha, no sul da costa central  do Perú. Esta rede terá funcionado entre  os anos 1000 e 1534. 
Devido ao sistema sócio-político mixteca e às fortes linhagens dos nobres, que favoreciam fortes alianças e um patronato cultural, os mixtecas regulamentavam e controlavam o ouro, a produção de objectos com o mesmo e a sua coercialização. [6]
Em 1519, com a chegada dos Espanhóis, ocorrem trocas de materiais entre os mixtecas e os colonizadores, ainda de forma injusta por ingenuidade do povo indígena. Enquanto os mixtecas ofereciam ouro, o povo espanhol oferecia em troca "contas de cristal de cor azul", isto é, pequenos pedaços de vidro. Quando Hernán Cortés questiona Moctezuma acerca da localização do ouro, Oaxaca é saqueada, assim como as sepulturas da região. Com a conquista, os mixtecas pagavam o seu tributo em ouro, tendo sido diversos objectos valiosos destinados à fundição. Em Espanha, o ouro fundido era transformado em moedas.[7]

[1] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[2] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 318
[3] SOUSTELLE, Jacques, El arte del México Antiguo, Barcelona: Juventud, 1969, p. 120
[4] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 318
[5] Orfebraria Prehispanica in http://riie.com.mx/?a=49160, consultado em 24/4/2013
[6] PEREA, Alicia, Tecnología del oro aniguo: Europa y América, Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004, p. 320
[7] CARMONA, Martha, La orfebrería prehispánica mixteca in http://www.mexicodesconocido.com.mx/la-orfebreria-prehispanica-mixteca.html, consultado em 24/4/2013

A cultura mixteca

A cultura mixteca é uma cultura arqueológica pré-hispânica, com as suas primeiras manifestações no período Pré-Clássico Mesoamericano, c. XV-II a.C., tendo terminado com a Conquista Espanhola, nas primeiras décadas do séc. XVI da nossa era. Dentro desta cultura, o nosso enfoque centra-se nos mixtecos,  "o povo das nuvens", em asteca.[1] Este povo indígena encontrava-se presente no território histórico La Mixteca, ou Ñuu Dzahui, em mixteco antigo. La Mixteca compreende a região territorial entre os actuais estados de Guerrera, Puebla e Oaxaca, sendo este último o nosso caso de estudo.(fig. 1) Com uma longa cronologia, que remonta à data de 1500 a.C., altura em que floresceram as aldeias agrícolas de Yucuita e de Monte Negro, centramos a nossa investigação no período Clássico e Pós-Clássico.(fig.2)
No período Clássico é importante frisar o crescimento dos centros de Teotihuacan e de Monte Albán, região que, como iremos observar, foi fundamental para a metalurgia mixteca. No final desta época estes mesmos centros sofrem de uma extinção das populações, sendo ocupados por tribos que se apoderam do que subsistiu das anteriores, entre elas os mixtecos. 
O contacto entre náguas e mixtecas vai ter consequências na arte mexicana, gerando-se uma mescla de concepções religiosas e cosmológicas. Deste troca de influências, os astecas irão mais tarde retirar proveito e conceber a sua própria cultura.[2] Na região onde estes dois povos convivem e edificam uma civilização, designada como "mixteca-puebla", apesar da diferença entre línguas e origens, as trocas de ideias e teorias vão ser recorrentes. Enquanto os mixtecas se apresentam com um grande virtuosismo artístico e grandes habilidades técnicas, os náguas são importantes para o desenvolvimento das concepções religiosas e cosmológicas, sendo estas muito diferentes das dos zapotecas. Neste contexto, destaca-se a cidade de Teotitlan del Camino, uma cidade mazateca que desempenhou um importante papel no desenvolvimento das ideias religiosas. Neste sentido os sacerdotes procuravam criar uma visão sincrética dos deuses e do universo, criando uma síntese dos mitos tribais e das lendas particulares de cada região.  Já os símbolos hieroglíficos dos mixtecas parecem ter sido imitados dos maias, criando assim um sincretismo nesta cultura e tornando difícil a identificação da sua herança cultura.[3]
Com uma história escrita que se inicia no séc. VII, a cultura mixteca atinge o seu apogeu no período Pós-Clássico, sob o domínio da figura histórico-legendária "Ocho Ciervo" ou " Garra de jaguar" (1011-1063). Foi no séc. XI que o povo mixteca decidiu expandir-se e desenvolver a sua área territorial. Os náguas, conscientes da superioridade técnica dos mixtecas, favoreceram o intercâmbio cultural. Exemplo disso é o 4º monarca de Texcoco que, no início do séc. XIV,  consente a imigração de mixtecas para a cidade que tinha acabado de fundar.
Apesar da troca de influências entre estes povos pré-hispânicos, os mixtecas consideravam-se autóctones. Segundo os mitos desta cultura, os seus antepassados teriam saído do solo ou nascidos das árvores do país, estabelecendo o seu primeiro centro em Tilantongo, na região de Oaxaca. 
Esta cultura, a par dos astecas, subiste até à Conquista Espanhola, como já referido anteriormente, deixando a sua marca em diversos sectores. Destacam-se a ourivesaria, a lapidação de gemas, a iconografia religiosa, a escultura em madeira, a cerâmica policromada e a iluminação de manuscritos.[4]
Fundamental para o estudo deste povo são os cronistas mixtecas e os códices Bodley, Zoucbe-Nutall, pintado em 1350, e Vindobonensis, de c. 1375, que relatam a história mixteca desde os finais do séc. VII, c. 692, até à Conquista Espanhola.[5]

Fig. 1 - A região La Mixteca, onde se incluem os estados de Guerrero, Puebla e Oaxaca

Fig. 2 - A presença mixteca ao longo do desenvolvimento da Mesoamérica

[1] ANTON, Ferdinand, ROSS, Peter, Ancient Mexican Art, Nova Iorque: G.P.Putman, 1969, p. 160
[2] idem, p. 119
[3] idem, p. 120
[4] idem, p. 160
[5] CANTU, Gloria, Historia de Mexico - El proceso de gestación de un pueblo, México: Pearson Educación, 2002

Objectivos da investigação

No âmbito da cadeira História do México, desenvolvemos um trabalho de investigação acerca da ourivesaria mixteca. Esta investigação tem como principais objectivos compreender o desenvolvimento da ourivesaria na região de Oaxaca, local onde se situavam os mixtecas, e identificar as principais características que a definem. Procuramos um entendimento acerca dos materiais utilizados, dos meios de produção, assim como das rotas que efectuavam as matérias-prima e as peças de ourivesaria alvo de comércio. Realizamos uma pesquisa acerca da importância da joalharia para a cultura mixteca, enquanto símbolo religioso e de estatuto social e desenvolvemos uma compreensão acerca das iconografias que constavam nas jóias e os seus contextos de utilização.
Neste sentido, a metodologia de trabalho utilizada consiste numa primeira contextualização desta cultura da Mesoamérica. Seguindamente focamos a nossa análise em objectos artísticos concretos, exemplos de características comuns a toda a ourivesaria mixteca. Procuramos também identificar as técnicas utilizadas e, fundamental para o estudo deste tema, introduzimos o caso das Tumbas de Monte Albán, onde figuram exemplares importantes para a história da ourivesaria na Mesoamérica.
A intenção deste blog centra-se na divulgação académica da joalharia mixteca, de grande riqueza e qualidade técnica, como iremos observar. Por se tratar de uma matéria que sofre de constantes descobertas,  temos como objectivo actualizar a informação que transmitimos, assim como introduzir novos factos descobertos, quando assim aconteça.